5. INTERNACIONAL 19.9.12

PRIMAVERA ASSASSINA
A reao vacilante aos radicais e o assassinato do embaixador na Lbia mostram que, sob Obama, os EUA so uma potncia envergonhada.
TATIANA GIANINI E NATHALIA WATKINS

     No desembarque do aeroporto do Cairo, avista-se um enorme cartaz com uma frase do presidente americano Barack Obama: Ns devemos educar nossas crianas para serem como os jovens egpcios. Tais palavras foram ditas em fevereiro de 2011, na Casa Branca, no dia da queda do ditador Hosni Mubarak, at ento um aliado dos americanos. Eles Mostraram como  falsa a ideia de que a justia se consegue com violncia, afirmou Obama, em um elogio aos manifestantes do movimento popular que se espalhou da Tunsia para quase todo o Oriente Mdio, no ano passado. A morte de quatro americanos, entre eles o embaixador Christopher Stevens, em um ataque ao consulado dos Estados Unidos em Bengasi, na Lbia, na tera-feira passada, demonstra quanto a retrica de Obama e a reao de seu governo s transformaes no mundo rabe estavam  e ainda esto  longe de parecer uma primavera.
     Stevens e os outros trs funcionrios (um deles diplomata e os demais ex-membros do grupo de elite Seal, da Marinha) foram mortos por homens armados com fuzis semiautomticos e lanadores de granadas que se misturaram a uma multido enfurecida de lbios reunida em frente ao consulado. Eles protestavam contra um filme produzido na Califrnia e divulgado na internet que retrata Maom, o fundador do islamismo, como um sanguinrio pedfilo, louco e bissexual. A verso de catorze minutos do vdeo foi traduzida para o rabe e motivou protestos violentos em trinta pases, a comear pelo Egito. Acredita-se que Steven e o outro diplomata, Sean Smith, tenham morrido asfixiados pela fumaa de um incndio provocado pelos manifestantes. Os ex-Seals Tyrone Woods e Glen Doherty morreram em um segundo ataque, numa emboscada contra um comboio formado para evacuar o consulado. Aparentemente, o embaixador e seu aparato de segurana subestimaram o risco que corriam naquele 11 de setembro, aniversrio de onze anos dos atentados terroristas em Nova York, talvez porque confiassem que os lbios se sentiam agradecidos pela ajuda recebida um ano antes. Na ocasio, os Estados Unidos e seus aliados da Organizao do Tratado do Atlntico Norte (Otan) deram armas, treinamento e apoio areo aos rebeldes para derrubar o ditador Muamar Kadafi. Entre os que se beneficiaram da ajuda podem estar os prprios assassinos do embaixador. Como isso foi acontecer em um pas que ns ajudamos a libertar?, surpreendeu-se a secretria de Estado, Hillary Clinton.
     A pergunta correta : como o governo Obama foi capaz de ignorar ameaas to evidentes? O fiasco da diplomacia americana foi duplo. Primeiro, pela postura dbia adotada em relao aos protestos que derrubaram os ditadores da Tunsia, do Egito, da Lbia e do Imen no ano passado. Segundo, pela incapacidade de tomar medidas de precauo contra os protestos em suas embaixadas. Desde o princpio da chamada Primavera rabe, o governo Obama adotou uma conduta de hesitao, revelando dificuldade em definir qual cenrio mais favorvel aos seus interesses. Em todos os pases rabes que tiveram seu governo derrubado, existia uma parcela significativa da populao formada por muulmanos fundamentalistas prontos para moldar os acontecimentos  sua imagem e semelhana. Em outras palavras, estava claro que a liberdade poltica e o vcuo de poder abririam as portas para a ascenso de uma ideologia islamista reconhecvel por seu dio aos valores ocidentais e pela submisso do estado  religio. Apesar disso, a diplomacia de Obama agiu como se confiasse na noo de que bastava ser um aliado de primeira hora para conseguir se sentar na janelinha das revolues e, assim, garantir a boa vontade dos novos governos. As declaraes das autoridades rabes a respeito dos ataques s embaixadas, na semana passada, provam quanto os estrategistas de Obama estavam equivocados. O presidente egpcio Mohamed Mursi, da Irmandade Muulmana, a mais poderosa organizao islamista do Oriente Mdio, restringiu-se a criticar o tal filme, praticamente convidando os egpcios a continuar com os atos de vandalismo: Eu condeno e me oponho a todos os que ofendem nosso profeta. Mursi s veio a pblico dizer que no permitiria ataques a embaixadas dois dias depois de ter deixado que a embaixada americana fosse atacada. Os lbios se saram com uma justificativa ainda mais reveladora. As mortes no foram nada em comparao com o insulto ao profeta, afirmou Wissam Buhmeid, que ocupa uma posio equivalente  de chefe de polcia em Trpoli, a capital da Lbia. Buhmeid disse que muitos dos guardas lbios responsveis pela segurana do consulado deixaram o massacre acontecer justamente por lealdade a Maom.
     O filme que despertou a fria  uma pea amadorstica de pssimo gosto feita por algum luntico, mas no justifica o assassinato de cidados americanos, nem de ningum, diz o cientista poltico iraniano Abbas Milani, da Universidade Stanford. A verso que foi para a internet  dublada. As falas originais foram substitudas por ofensas ao Isl e a Maom. A farsa, de autoria erroneamente atribuda a um israelense, foi bovinamente replicada pela rede no mundo inteiro. Trechos traduzidos para o rabe foram divulgados em tom de denncia por um canal de TV egpcio. O ataque  embaixada no Cairo, portanto, comeou a ser planejado com trs dias de antecedncia. Apesar disso, Washington no viu necessidade de pr as outras representaes diplomticas da regio em alerta  apesar do precedente dos violentos protestos de 2006, motivados por charges de Maom publicadas por um jornal dinamarqus. O Oriente Mdio  uma regio com uma teocracia agressiva, o Ir, com planos de construir uma bomba atmica; uma guerra civil, na Sria; e uma sequncia de revolues tolamente interpretadas no Ocidente como sinais de uma primavera, mas que marcham rapidamente para ser um duradouro inverno. Enquanto isso, a nica fora na Terra capaz de dar alguma esperana real de progresso  regio, o governo dos Estados Unidos, encolhe-se de vergonha de seu prprio poder.

CHVEZ, O LARANJA ATMICO?
     Uma investigao da Polcia Federal est tentando, desde a semana passada, confirmar os indcios de que o Ir est importando do Brasil, clandestinamente, matria-prima para o seu programa nuclear. A suspeita surgiu depois da apreenso em agosto, na Bolvia, de 2 toneladas de um minrio estratgico. As rochas em estado bruto foram encontradas em sacos na garagem de um prdio em La Paz onde funciona o escritrio do adido militar da Venezuela. Prontamente, o governo boliviano declarou tratar-se de urnio, um material que, em elevado grau de pureza, serve como combustvel da bomba atmica. No dia seguinte, um ministro boliviano disse que o que havia sido apreendido era tantalita, mineral usado na produo de ligas metlicas de alta resistncia ao calor,  abraso e  corroso por substncias cidas, caractersticas ideais para a fabricao de peas para reatores nucleares e motores de foguetes e msseis. A tantalita est desde 2008 na lista de produtos que no podem ser exportados para o Ir, como parte das sanes impostas pela ONU ao programa nuclear dos aiatols. A Polcia Federal, que montou uma fora-tarefa com a Agncia Brasileira de Inteligncia (Abin) e o Exrcito para elucidar o caso, j sabe que o minrio encontrado em La Paz  proveniente de garimpos de Guajar-Mirim, em Rondnia. Outras 18 toneladas de tantalita j estavam sendo encaminhadas para a Bolvia. De l, as rochas seriam transportadas ao Chile por terra e, depois, de navio at a Venezuela. Se a carga contrabandeada for realmente de tantalita  ainda h dvidas, pois os investigadores brasileiros no puderam fazer uma anlise independente , a Venezuela ter de responder por que usou um caminho clandestino para obt-la. Toda exportao de tantalita do Brasil precisa ser aprovada pela Comisso Nacional de Energia Nuclear. Integrantes da equipe de investigao ouvidos por VEJA acreditam que os venezuelanos planejavam enviar o minrio ao Ir sem despertar suspeitas da comunidade internacional. Os presidentes Hugo Chvez, da Venezuela, e Mahmoud Ahmadinejad, do Ir, tm estreita colaborao, que j se traduziu em investimentos no pas sul-americano, entre elas a construo de uma fbrica de automveis ociosa. Se as suspeitas da PF forem confirmadas, ficar claro que a Venezuela no s apoia como tambm contribui ativamente para o programa nuclear secreto do Ir.
LEONARDO COUTINHO

